Base bíblica: Mateus 4.1-17 | 2 Coríntios 12.9 | Deuteronômio 31.8 | Isaías 41.10 | Salmos 13.5
Crescer na fé na dificuldade é um dos processos mais desafiadores e ao mesmo tempo mais transformadores da vida cristã. Não existe crescimento espiritual profundo sem que o sofrimento faça parte do caminho. E o maior exemplo disso não está em um livro de autoajuda, nem em uma história inspiradora das redes sociais. Está em Mateus 4, quando Jesus, cheio do Espírito Santo, foi levado ao deserto para ser tentado.

Talvez você esteja em um desses dois extremos agora: com tempo sobrando e sem saber o que fazer com ele, ou sobrecarregado de responsabilidades ao ponto de mal conseguir respirar. Em qualquer dos dois cenários, a pergunta que esta mensagem traz é a mesma: como Deus me aperfeiçoa nessa situação? Como eu posso crescer na fé mesmo aqui, mesmo assim?
O deserto que o Espírito escolheu
“Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.” (Mateus 4.1-2)
Um detalhe fundamental nesse texto: quem levou Jesus ao deserto não foi o diabo. Foi o Espírito Santo. Esse detalhe muda tudo. Significa que há desertos que Deus mesmo escolhe para nós, não como punição, mas como preparação. Assim como Deus levou o povo de Israel ao deserto para provar e preparar um povo temente a Ele, o Espírito conduz Jesus ao lugar do sofrimento antes de conduzi-lo ao lugar do ministério.
A pergunta que precisamos fazer não é apenas “por que estou passando por isso?”, mas “o que Deus quer produzir em mim aqui?” Crescer na fé na dificuldade começa quando paramos de tratar o deserto como um erro de percurso e passamos a enxergá-lo como parte do plano.
A tentação de transformar pedra em pão
No meio da fome e do esgotamento, a primeira tentação que o diabo apresenta a Jesus é aparentemente razoável: “Se você é o Filho de Deus, mande que estas pedras se transformem em pães.” Em outras palavras: use o que você tem para resolver o problema do jeito que você sabe.
É exatamente o que o sofrimento nos tenta a fazer. As circunstâncias difíceis nos pressionam a tomar decisões que aliviam a dor imediatamente, mas que saem fora da vontade de Deus. Tentamos gerenciar o nosso sofrimento por conta própria: ficamos depressivos, brigamos com quem amamos, buscamos refúgio em lugares errados, tentamos transformar pedra em pão.
“Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.” (Mateus 4.4)
Jesus não cedeu ao apetite egoísta. Ele não usou o poder que tinha para escapar do sofrimento. Ele permaneceu fiel à missão, ainda que com fome, ainda que exausto. É nessa postura que o aperfeiçoamento acontece. Crescer na fé na dificuldade exige resistir ao impulso de resolver as coisas no nosso tempo e do nosso jeito.
Obediente até a morte: a fidelidade que forma o caráter
Nas três tentações do deserto, Jesus responde a cada uma da mesma forma: “Está escrito.” Ele não argumenta com emoções. Não negocia com a dor. Não tenta encontrar uma saída mais conveniente. Ele ancora cada resposta na Palavra de Deus e permanece fiel à missão para a qual foi enviado.
Há dois contrastes poderosos no Evangelho que iluminam essa questão. O jovem rico e Zaqueu. Ambos eram homens de posses, ambos encontraram Jesus. A diferença é que o jovem rico não quis abrir mão das suas riquezas para seguir a Cristo. Zaqueu, ao contrário, decidiu viver com muito menos, deu metade do que tinha aos pobres e restituiu aqueles a quem havia prejudicado. E foi de Zaqueu que Jesus disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa.”
A diferença entre os dois não estava nas circunstâncias externas. Estava na disposição interior de abrir mão do controle e confiar. Crescer na fé na dificuldade passa sempre por essa escolha: segurar ou soltar.
O poder que se aperfeiçoa na fraqueza
“Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.” (2 Coríntios 12.9)
Paulo não escreveu esse versículo de um lugar confortável. Ele o escreveu depois de pedir a Deus três vezes que removesse um espinho da carne, e receber como resposta não a remoção do sofrimento, mas a presença de Deus dentro dele. A graça não eliminou o problema. Tornou Paulo capaz de carregá-lo de um jeito diferente.
Essa é a lógica do aperfeiçoamento pelo sofrimento: Deus raramente remove a dificuldade antes de usar a dificuldade. Ele nos transforma dentro do processo, não depois que ele acabou. E é exatamente nessa fraqueza reconhecida que o poder de Cristo encontra espaço para repousar sobre nós.
Corra para Ele, não se afaste
Há uma imagem poderosa que resume o caminho de quem quer crescer na fé na dificuldade: a ovelha enferma que depende completamente do pastor para ser curada. Ela não tenta se curar sozinha e nem foge para longe. Ela se aproxima, fraca e vulnerável, e confia no cuidado do pastor.
“O próprio Senhor irá à sua frente e estará com você; ele nunca o deixará, nunca o abandonará. Não tenha medo! Não se desanime!” (Deuteronômio 31.8)
A tentação no meio do sofrimento é se afastar de Deus, especialmente quando parece que Ele não está respondendo. Mas é exatamente no momento em que não há forças que a aproximação precisa ser maior. Não seja como Jonas, que tentou fugir. Encare os problemas de frente, siga prosseguindo para o alvo e mantenha os olhos em Cristo.
“Eu porém confio em teu amor; o meu coração exulta em tua salvação.” (Salmos 13.5)
Tirar os olhos da crise e colocá-los em Cristo não significa ignorar o problema. Significa escolher quem vai ter a palavra final sobre ele.
Conclusão: não desista no deserto
Há uma frase que resume bem o espírito desta mensagem: “Não desista nas trevas daquilo que Deus lhe deu na luz.” O deserto não é o fim. É o lugar onde o Espírito Santo nos prepara para o que vem depois. Jesus saiu do deserto no poder do Espírito e começou a pregar: “Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo.”
Crescer na fé na dificuldade é possível. Não porque a dificuldade vai embora, mas porque Deus está nela. Ele vai à sua frente, está com você, nunca o deixará, nunca o abandonará. A graça é suficiente. O poder se aperfeiçoa na fraqueza. E o sofrimento que hoje parece esmagar é o mesmo processo que está formando em você um caráter que nenhum tempo de abundância conseguiria produzir.
Oração
Use esta oração para entregar ao Senhor o que esta mensagem tocou:
Senhor, eu reconheço que estou no deserto. Às vezes não entendo por que estou aqui, e às vezes sinto que não tenho forças para continuar. Mas hoje eu escolho confiar que foi o Teu Espírito quem me trouxe até aqui, e que Tu tens um propósito nesse processo. Ajuda-me a não transformar pedra em pão, a não fugir como Jonas, a não ceder ao que parece mais fácil. Que eu seja como a ovelha que corre para o pastor. A Tua graça é suficiente. O Teu poder se aperfeiçoa na minha fraqueza. Eu confio no Teu amor. Em nome de Jesus, amém.
Aplicação Prática
Escolha ao menos uma ação concreta para colocar em prática ainda esta semana:
Nomeie o seu deserto: escreva em um papel qual é a situação difícil que você está enfrentando agora. Depois escreva ao lado: “O Espírito Santo está comigo aqui.” Esse simples ato muda a perspectiva sobre o que você está vivendo.
Identifique as pedras que você tem tentado transformar em pão: quais decisões ou comportamentos você tem adotado para aliviar a dor por conta própria, fora da vontade de Deus? Nomeie-os com honestidade e traga-os ao Senhor em oração.
Escolha um versículo para ancorar sua semana: dentre os textos desta mensagem, escolha um e escreva-o em um lugar visível. Leia-o em voz alta toda manhã. A Palavra é o fundamento que sustenta a fé quando as emoções falam mais alto.
Aproxime-se, não se afaste: se o sofrimento tem te afastado de Deus, da igreja ou das pessoas que te amam, dê um passo concreto de aproximação ainda hoje. Uma mensagem, uma ligação, um culto, um momento de oração. A ovelha enferma não cura sozinha.
O deserto tem uma saída. E quem caminha com Cristo sempre chega a ela.
